Em entrevista ao repórter Hamurabi Dias, Marcela Prest, pré-candidata à prefeita pelo PSOL Feira de Santana, fala da aliança do partido com setores populares e da importância da candidatura de uma mulher para a política do município

Entrevista concedida a Hamurabi Dias

1 – Marcela, explica como foi o processo de escolha do seu nome para encabeçar a chapa do PSOL. Há definição para vice? Pode ser também uma mulher?

No PSOL de Feira de Santana a discussão sobre as eleições municipais ficou paralisada nos últimos meses em função da pandemia de COVID-19. Durante esse tempo nossa prioridade passou a ser o desenvolvimento de ações de solidariedade e articulação comunitária nas áreas mais populares do município, especialmente nas periferias, que vêm sendo duramente atingidas pela crise. Mas como as eleições foram mantidas, e nós avaliamos que a nossa participação é importante – justamente pela política institucional ter um papel a cumprir na garantia de direitos e de justiça social – o debate sobre as eleições foi retomado.

Dialogamos muito, dentro e fora do partido, para refletir sobre qual seria o nome mais indicado para representar o nosso programa colaborativo e coletivo, que temos construído para Feira desde que disputamos a prefeitura em 2012, com o companheiro Jhonatas Monteiro. Após escutar diversas lideranças femininas e feministas do município, após diversas plenárias entre a nossa militância, e conversar com diversos setores sociais, avaliamos que nesse momento de aumento do conservadorismo, onde a tônica da política institucional tem sido baseada no ódio às mulheres, à negritude, à população LGBTQIA+ e às comunidades tradicionais, se fazia necessária uma candidatura feminista e antirracista para disputar os rumos da política no nosso município. Por isso aceitei a indicação coletiva do meu nome para assumir a tarefa de representar um programa feminista, antirracista, popular e radicalmente democrático, e em defesa da vida, para Feira de Santana. É com muita responsabilidade, afeto e compromisso com a maior parte da população em sua diversidade, que vou disputar a prefeitura, para que possamos ir à raiz dos problemas e construir uma Feira com direitos garantidos para todas e todos. O nome para a vice candidatura ainda não está definido, e seguimos em debate coletivo. Definitivamente pode sim ser uma mulher. Agora em setembro faremos a nossa convenção eleitoral, onde todas as nossas candidaturas serão oficializadas.

2 – Quais são seus principais posicionamentos que devem fazer parte da campanha à prefeitura?

Desde a nossa primeira candidatura, lá em 2012, nós do PSOL de Feira de Santana construímos um método coletivo para elaborar nossos programas de governo. Nós realizamos debates públicos, que chamamos de rodas de conversa, onde discutimos os problemas do município e temas que consideramos relevantes para o dia a dia das pessoas, e que precisam de intervenção pública. É com base nesse processo de escuta, e sempre considerando as bandeiras de luta do PSOL, que construímos as nossas propostas.

Embora nesse ano a pandemia tenha dificultado a realização das nossas rodas presenciais, mantivemos o diálogo com setores organizados e segmentos da luta popular em Feira. Além disso, temos programadas algumas atividades virtuais para acontecer em breve, e estamos também buscando a contribuição de várias pessoas, de forma a garantir esse momento de escuta da população, então nosso programa ainda está em processo de atualização. Mas desde já podemos afirmar nosso compromisso: com a defesa da transparência nos gastos públicos, através da abertura das contas da prefeitura e da realização de auditorias; com a realização de concursos públicos, desmontando os esquemas de cabide de empregos e trocas de favores; com a defesa da participação direta da população nas decisões sobre os rumos do município, inclusive nas decisões sobre orçamento; com a valorização dos serviços públicos frente às privatizações; com a defesa da vida das mulheres, através de programas de saúde e segurança específicos; com a defesa da nossa juventude negra, que vem sendo massacrada nas periferias, seja pela violência seja pela falta de oportunidades culturais e educacionais; com a valorização das trabalhadoras e trabalhadores do campo; com a defesa do direito ao trabalho de feirantes, camelôs e ambulantes, que fazem parte da história e cultura do município, e nesse momento se encontram ameaçados de expulsão do centro da cidade pela política elitista de Colbert Martins; e pela valorização das trabalhadoras e trabalhadores da cultura, que vêm resistindo e mantendo viva a cena cultural popular de Feira, mesmo sem apoio dos governos

3 – Marcela, o grupo político que atualmente governa Feira de Santana se perpetua há mais de 20 anos no poder, inclusive com muitos nomes impregnados em secretarias importantes para a cidade. Como vencer o discurso desta política viciada?

Esse grupo tem se apoiado ao longo dos anos no discurso falacioso de uma suposta competência. Segundo essa retórica, o ex-prefeito José Ronaldo e seus sucessores teriam realizado administrações primorosas e transformado Feira de Santana numa verdadeira potência. Mas essas palavras vazias não se sustentam diante do exame da realidade. Quem vive o cotidiano de Feira se depara com falta de água e saneamento básico na maioria dos bairros; com um transporte coletivo precário e extremamente caro; com um sistema de saúde que não consegue atender à demanda da população e cambaleia à base da troca de favores; com falta de apoio para as trabalhadoras e trabalhadores do campo; com o abandono dos distritos; dentre vários outros absurdos cuja descrição tomaria a entrevista inteira.

As pessoas não são ingênuas. Elas conhecem a sua realidade, e sabem da incompetência e das falcatruas da administração municipal, que vez por outra são até expostas na mídia, mas não têm enxergado alternativas dentro do cenário político, e votam do jeito que podem para garantir a satisfação das suas urgências. Nosso desafio é justamente minar esse esquema de exploração, que mantém o povo refém da velha política. O processo eleitoral também pode ser muito educativo, e nossa principal tarefa é mostrar às pessoas que as migalhas que esses sujeitos oferecem como favores não são mais que obrigação, e que o povo tem direito a muito mais sem esses “intermediários”, que mais atrapalham do que ajudam.

4 – A cada eleição o PSOL se faz presente em Feira de Santana, inclusive em 2016 Jhonatas Monteiro teve mais votos que políticos tradicionais da cidade como Angelo Almeida e Jairo Carneiro e foi bem votado na campanha para deputado estadual em 2018. Qual a expectativa para este ano?

Nossa expectativa é avançar sempre. Como você mesmo comentou anteriormente, Feira de Santana é governada há mais de 20 anos pelo mesmo grupo político e a população está cansada. Está desacreditada da política partidária, pois todos os políticos parecem ser apenas “mais do mesmo”. As pessoas se acostumaram a acreditar que a política partidária é sinônimo de troca de favores, e que é uma espécie de “destino” viver com dificuldade e não ter acesso ao que deveria ser direito, como saúde e educação de qualidade.

Nossa tarefa é fazer as pessoas acreditarem que a política pode ser feita pelo povo e para o povo, atendendo aos interesses reais da população, e que sua ação organizada pode, de fato, modificar a realidade. Acreditamos que as pessoas irão se identificar com as nossas candidaturas, vendo mulheres, trabalhadoras e trabalhadores, negras e negros e pessoas LGBTQIA+ concorrendo aos cargos e apresentando propostas sérias para a melhoria das condições de vida da população, e que isso pode se refletir nas urnas. Esperamos conseguir eleger vários mandatos, para construir uma bancada de luta e de oposição verdadeira na Câmara, e a contribuição do nosso companheiro Jhonatas é muito importante para isso, justamente pelas votações que conseguimos a partir do nome dele em eleições anteriores. Disputamos com a certeza de que temos condição de oferecer um governo que coloque Feira de Santana em outro rumo a partir de 2021. Mas mais do que isso, trabalhamos para que, passado o processo eleitoral, a identificação e a insatisfação das pessoas se transformem em ânimo para modificar a realidade no cotidiano.

5 – O PSOL tem R$ 40 milhões do fundo eleitoral. Qual a sua opinião sobre este dispositivo e como o partido do qual faz parte pretende usar esse recurso?

Nós do PSOL sempre defendemos o financiamento público de campanhas, pois como diz o ditado popular: quem paga a banda, escolhe a música. Quando o financiamento é privado, a partir de empresas, bancos e empreiteiras, esse financiamento acaba sendo tratado como uma troca de favores. Afinal, como seria possível criticar em campanha os abusos do empresariado do transporte coletivo, por exemplo, quando você é financiado por ele? Por isso, mesmo quando ainda era permitido financiamento privado, nós do PSOL nunca o aceitamos de empresas e similares. As doações que recebemos sempre vieram de apoiadores individuais, que por identificação com nosso programa e nossas lutas contribuíam conosco através de “vaquinhas”.

Embora o PSOL avalie que o fundo partidário deveria ser menor do que o que vem sendo aplicado, sabemos que isso está relacionado principalmente aos partidos políticos tradicionais, que não sabem mais fazer campanha com pouco dinheiro. Nós do PSOL aqui em Feira de Santana sempre fizemos campanhas de valores modestos, mesmo com as outras campanhas estando na casa dos milhões. E além disso, fomos a primeira candidatura à prefeitura a construir um método de campanha colaborativa, que ia desde a construção do nosso programa de governo até a arrecadação financeira, como eu disse anteriormente.

Recentemente a Direção Nacional do PSOL aprovou critérios de distribuição do fundo eleitoral, segundo os quais a prioridade são as candidaturas de mulheres, negros e negras, pessoas LGBTQIA+ e pessoas com deficiência (PDC), com o intuito de estimular e potencializar candidaturas com esse perfil. É uma ação baseada na compreensão coletiva de que a política institucional precisa ser mais representativa e diversa. Quem quiser saber mais detalhes sobre a nossa resolução pode ler sobre ela no site: https://psol50.org.br/psol-aprova-novas-regras-para-democratizar-fundo-eleitoral/

6 – Historicamente o PSOL não faz coligações para eleições. Mas para 2020 quais são os diálogos estabelecidos?

Veja bem, não fazemos aliança com os partidos da ordem, com determinados grupos políticos, mas fazemos alianças sim com diversos setores da luta social da cidade e do campo, e não apenas nas eleições. Essa relação de construção coletiva se faz durante todo o ano, na luta cotidiana para a garantia de direitos. Fazemos alianças com aquelas e aqueles que desejam e se colocam para fazer política de outra forma, sem o toma lá dá cá e troca de favores. Nossa aliança é com quem pensa que é necessário ter mulheres, negros e negras, pessoas LGBTQIA+, ocupando os espaços de poder e de decisão em Feira de Santana, e que sejam comprometidos com a luta por direitos e pela vida. Para o PSOL a prioridade é estar lado a lado com quem constrói a cidade todos dias, seja pegando o transporte público precário e caro, seja enfrentando a fila do posto de saúde, com quem não tem água potável ou saneamento básico em sua rua, com quem sente na pele a falta de vagas nas creches, com quem precisa e luta por escolas de qualidade.

7 – Políticas para mulheres. Como feminista, como percebe este tema em Feira de Santana e como ele é tratado como política pública na cidade?

Do ponto de vista da organização social, Feira de Santana muito me orgulha, pois aqui temos uma diversidade de coletivos e grupos de mulheres organizadas, diversas, lutando por espaço e por direitos já há muitos anos. Essa luta não tem sido em vão, e o movimento feminista de Feira hoje é reconhecido e respeitado como uma força política importante, basta ver os atos que conseguimos organizar, e as mobilizações que somos capazes de fazer, a exemplo do belíssimo e gigantesco ato de rua que construímos em setembro de 2018, conhecido como “Ele Não!”.

Já do ponto de vista das políticas públicas a situação é exatamente oposta. A Rede de Proteção à Mulher, que deveria atender às mulheres vítimas de violência, funciona de forma precária; as creches municipais não conseguem atender à demanda real do município; precisamos de mais leitos materno infantis e não temos sequer uma casa de parto; não há uma política específica de combate ao feminicídio nem de prevenção à violência sexual. Além disso, é preciso pensar a condição da mulher na sociedade em sua integralidade, em termos de qualidade de vida. A falta de uma boa iluminação pública, por exemplo, impacta diretamente a vida das mulheres, pois em ruas mal iluminadas estamos mais sujeitas à violência. O transporte público vai pelo mesmo caminho, quanto mais precário o transporte, mais as usuárias estão vulneráveis ao assédio, por exemplo. É preciso pensar a condição feminina dentro das políticas públicas de forma transversal. Priorizar as mulheres em políticas habitacionais, de geração de emprego e renda, dentre outras. Não é uma questão de privilégio, muito pelo contrário! Trata-se justamente de corrigir as assimetrias históricas, que fazem com que, hoje, as mulheres vivam de forma mais precária e usufruam de menos direitos. Espero que minha candidatura, que não é só minha, mas do PSOL e de todas as mulheres, possa contribuir para a visibilização das nossas demandas, das nossas pautas, e com isso contribuir para a nossa emancipação. Quando nós mulheres avançamos, movemos conosco todas as estruturas.

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