Existe remédio para o transporte coletivo feirense?

Por Jhonatas Monteiro

Começo do óbvio: o sistema de transporte coletivo de Feira de Santana é uma desgraça. O preço pago todo dia por milhares de feirenses é um roubo, considerando-se qualquer critério de qualidade do serviço. A partir de estudos produzidos na UEFS, há anos estão “sobre a mesa” propostas alternativas para recalcular (e baratear) aquela que é uma das tarifas mais caras do Brasil. Porém, mais que preço alto, o transporte coletivo no município significa transtorno diário pela demora, superlotação e precariedade dos ônibus.

A primeira razão para um sistema de transporte tão ruim é, sem dúvida, a conivência do poder público com os desmandos das empresas de ônibus. Dos contratos à fiscalização diária, prefeitura e maioria de vereadores sistematicamente “deixam rolar”. Colbert é só mais um que continua essa lucrativa “política de compadres” com os empresários do ramo, esquema profissionalizado pelo ex-prefeito José Ronaldo. Como resultado, tomando o ano de 2013 como marco do debate sobre a melhoria da mobilidade urbana, basta dizer que nos últimos 07 anos tivemos acidentes com ônibus sem freios, outros que sozinhos literalmente pegaram fogo, empresas que abandonaram o serviço e deixaram o município sem transporte coletivo durante 10 dias, inúmeros ônibus quebrados em localidades rurais… Tudo isso acompanhado de quase ininterrupto aumento do preço da passagem e muito transtorno cotidiano!

Contudo, a segunda e menos visível razão para esse estado de coisas é a própria lógica do sistema de transporte. Ele é organizado “de costas” para a realidade da maioria da população: projetado para transportar as pessoas feito gado só para comprar e trabalhar, sem qualquer conforto e pelos “olhos da cara”. Qualquer outra necessidade social, como lazer e cultura, é deixada de lado. Não à toa, a frota quase inexiste nos finais de semana e os bairros, especialmente os periféricos, ficam praticamente ilhados. A lógica dos “donos da cidade”, nesses 20 anos do mesmo grupo controlando o governo municipal, me parece bem clara: se o povo não está comprando ou trabalhando, tem que ficar circulando pra quê?! O dito Sistema Integrado de Transporte (SIT), incapaz de integrar direito um bairro vizinho do outro, e o tal Bus Rapid Transit (BRT), restrito a um pequeno pedaço do Centro, materializam essa visão antidemocrática e antipopular.

Como em outras áreas, a atual pandemia de Covid-19 agravou esses e outros problemas que já existiam no transporte coletivo. Medidas empresariais como redução da frota em circulação e diminuição dos horários, obviamente, contribuíram para mais aglomeração nos veículos do que o contrário. Como quem está acostumado a fazer o que quer, mesmo neste momento, uma das empresas de ônibus cometeu a canalhice de suspender 10 linhas – Isolando, sobretudo, diversas comunidades rurais e quilombolas da área norte de Feira. Por esses e outros exemplos, vê-se que o empresariado do transporte por aqui faz impunimente o que é bom para o seu bolso e a maioria da população que se lasque. Justamente por isso, devemos retribuir chutando as atuais empresas e reformulando completamente o sistema!

O principal ponto dessa reformulação do sistema de transporte é organizá-lo para ser não apenas coletivo, mas público de verdade. Para tanto, a tarifa zero é central, ou seja, adoção de gratuidade total para o conjunto de quem usa ônibus. Reorientar o sistema dessa forma, substituindo o objetivo de lucro privado pelo atendimento das necessidades sociais, tem a vantagem de facilitar todas as outras mudanças necessárias nessa área: aumento da frota, redesenho das linhas para atender bem os bairros, real integração por tempo, controle efetivo do sistema por quem usa etc. Obviamente, ao viabilizar uma mobilidade mais ampla, a tarifa zero ainda tem potencial para produzir impactos positivos sobre a economia municipal. Contudo, considerando o contexto da pandemia e que vivenciamos a perspectiva de uma prolongada crise social, escancarada no alto desemprego e brutal concentração de renda, o mais importante é que esse pode ser um mecanismo fundamental de garantia de outros direitos. Acesso à escola ou à saúde, como exemplos básicos, dependem da circulação das pessoas pelo município e a falta de dinheiro para pagar uma passagem não pode ser mais uma barreira para isso. Afinal, transporte é direito e não um favor que o poder público nos faz. E não podemos esquecer: não só como horizonte, mas como proposta real para Feira de Santana, a tarifa zero é possível.

Veja também: Mobilidade urbana em Feira de Santana: assista o debate promovido pelo grupo Territorialidade, Direito e Insurgência

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