Enchentes na Bahia e alagamentos em Feira de Santana

Quando o descaso com o meio ambiente e a falta de planejamento do poder público se transformam em tragédia, quem paga o preço é a população

Marcela Prest – Doula, mãe, feminista negra e presidenta do PSOL Feira de Santana

O final de ano é um período comumente dedicado à reunião com familiares e pessoas queridas, à partilha, risadas e confraternização, mas infelizmente, aqui na Bahia, o final de ano tem sido de muita tristeza e desespero para milhares de pessoas, em função das enchentes que assolam nosso estado. Já são 66 municípios em situação de emergência por conta das fortes chuvas, 18 mortes e pelo menos 3,8 mil pessoas desabrigadas, além das 10.955 desalojadas (pessoas que tiveram que abandonar seus imóveis, mas não necessitam de abrigo), somando mais de 400 mil pessoas afetadas diretamente por essa tragédia, sobretudo nas regiões de Itabuna, Ilhéus e Itapitanga. Além dos prejuízos humanos e materiais mais óbvios, duas barragens também se romperam, uma em Vitória da Conquista e outra em Jussiape, tornando a situação ainda mais complexa.  

Feira de Santana, embora não esteja na região diretamente atingida pelas enchentes, também tem sido afetada nos últimos dias por chuvas intensas, que já causam prejuízos à população. O discurso habitual do poder público municipal, também reproduzido pela mídia ao longo dos anos, é a culpabilização dos pobres que se estabelecem às margens dos mananciais e aí constroem as suas casas. Para o PSOL essa perspectiva é equivocada, porque criminaliza a pobreza e desconsidera as razões estruturais que obrigam essa parcela da população a recorrer a áreas ambientalmente inseguras. Afinal, é o próprio povo que sofre com alagamentos constantes, além da proliferação de insetos e doenças. A desigualdade fundiária e o déficit habitacional, associado à incipiente promoção pública da habitação, estruturaram esse cenário de degradação ambiental. 

No último dia 25, o prefeito Colbert Martins Filho decretou Estado de Emergência diante dos alagamentos no município, e criou um Comitê de Crise, atitude que já havia sido cobrada pelo PSOL em outros momentos, já que o caos após as chuvas é uma situação recorrente em Feira de Santana. É preciso destacar que a chuva não deve ser vista como algo ruim, muito pelo contrário. Trata-se de uma dádiva da natureza, que garante a produção de alimentos, especialmente em municípios como o nosso, onde parte da população sobrevive da agricultura. Entendemos que os alagamentos de áreas residenciais são consequência do descaso, da negligência e da falta de planejamento por parte do poder público municipal, assim como o volume excessivo das precipitações e sua ocorrência fora da temporada resultam da grave crise climática que o mundo atravessa e que diversos governos, de maneira irresponsável, seguem a negar.

Diante da grave situação, em Feira de Santana e em todo o estado, é importante que a população, mais uma vez, demonstre seu potencial de solidariedade para ajudar as milhares de famílias que perderam tudo e que se encontram em situação de vulnerabilidade extrema. Mas sobretudo, precisamos cobrar do poder público municipal a sua responsabilidade, para que as ações do Comitê de Emergência sejam efetivas, e não apenas discurso em redes sociais. Em novembro o mandato do PSOL na Câmara Municipal já havia cobrado medidas de prevenção com relação às chuvas, e indicou à Prefeitura a criação de um Plano de Trabalho Emergencial para lidar com alagamentos (PTE-Alagamentos). De acordo com nossa proposta, o Plano deveria contemplar pequenas intervenções preventivas a serem realizadas pela Secretaria de Serviços Públicos, pela Secretaria de Desenvolvimento Urbano, pela Superintendência de Operações e Manutenção, a SOMA, e pela Defesa Civil. O Plano deveria também mapear as áreas já conhecidas por apresentarem grandes alagamentos e definir medidas necessárias para amenizar suas consequências, como oferecer amparo social às famílias atingidas e garantir moradia temporária para aquelas pessoas que precisem deixar suas casas até que o nível da água baixe, como infelizmente temos visto nos últimos dias nos bairros Sítio Matias, Rocinha, Queimadinha, Sobradinho, George Américo, Feira VI e nas comunidades rurais do município, especialmente no  distrito de Bonfim de Feira. 

Se você quiser e puder ajudar, várias campanhas de solidariedade têm sido organizadas no estado e também em Feira de Santana. Aqui em nosso município, o Ilê Axé 7 Ondas de Yemanjá (@7ondasdeyemanja) está arrecadando doações, que podem ser feitas na Rua Pero Vaz, 119, bairro Sobradinho. O telefone para contato é (75) 9 9264-2546. Além desta iniciativa, temos Campanha do Diretório Central do Estudantes (DCE) da UNEB (dceuneboficial), que está arrecadando doações pelo PIX [email protected], e também a campanha organizada pela Associação de Jovens Indígenas Pataxó (AJIP) e pela Organização de base da Juventude Pataxó (@ajipoficial), através da qual você pode fazer doações para as comunidades indigenas atigindas no extremo sul através do pix (73) 9 9865-0523 (Kécia Guedes de Oliveira).

Seguimos juntas, juntos e juntes, organizando a solidariedade aos atingidos pelas enchentes e cobrando dos poderes públicos municipais e estaduais medidas que assegurem a vida e o direito à moradia digna para o conjunto da população baiana em sua diversidade!

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